Um profeta o barbudo Deodoro, o Fundador da República. Escreveu, talvez, o segundo artigo – o primeiro, eu suponho tenha sido do Caminha com o seu "em se plantando tudo dá" - da Lei das Impossibilidades Tupiniquins para desespero dos positivistas: “República no Brasil é coisa impossível porque será umaverdadeira desgraça. Os brasileiros estão e estarão muito mal-educados para republicanos” (um resumo do "o que começa errado termina errado?"). Isto ele disse bem antes de, com seus 600 soldados e uma banda de música (tinha, não havia festa sem uma), despachar a família imperial para a Europa. Sua carta ajuda a entender, ainda, a mania fundada pelo Bob (Jefferson) de termos “assuntos republicanos" e "assuntos não republicanos”. Sem dúvida é uma boa data o 15 de Novembro para se meditar sobre o que é ou não é republicano. Complicado é definir o que seja republicano. Tentei fazer uma lista, fiquei às voltas só com assuntos não-republicanos, um puxando o outro, eu naquela de me dizer o que não é um cavalo. No espírito comteano, mortos guiando vivos: “a humanidade se compõe mais de mortos que de vivos”.
Deodoro escreveu e não leu, seguiu a corrente e

fundou a República, do jeito que deu. Aliás cuidando logo de definir temas não-republicanos: um mês depois
de proclamá-la tratou de editar a Lei Rolha, a primeira
censura à imprensa nacional. Nem hino a República tinha... Objetivo da lei: julgar “abusos da manifestação do pensamento”. Fez-se o conceito para os futuros. Coça de inveja a mão de quem segura a caneta do Poder - federal, estadual, municipal.
Não conhecemos uma república teocrática ao sabor
positivista, mas em nome de Deus, Pátria e Família
sofremos revoluções, a última morreu meio de inanição e também no berço esplêndido de assuntos não-republicanos... Como de tudo fica um pouco, lembrando de Drummond, levamos um traço autoritarista, próprio ao positivismo dos seguidores de Isidore Auguste Marie François Xavier Comte, como Júlio de Castilhos, Getúlio e, óbvio, a caserna. E nos recônditos profundos da alma do Operário que Virou Patrão, no jeito destrambelhado de algum governador, na língua solta dos que defendem uma ditadura como salvação nacional (o voto corrompe a razão popular, é do espírito comteano). Barbaridade!
Tudo assim tão pouco republicano, meio cantando baixinho
Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós!
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz!
(Refrão do Hino à Proclamação da República, mal o conhecemos, por sinal tem uma letra calhordinha demais para o meu gosto!)
Ganhamos uma bandeira, dia 19 é dela, expondo nossas riquezas, delícias e encerrando o postulado máximo do positivismo: Ordem e Progresso (ou seria "Ordem no Congresso"?). Seguimos, aprendendo a conviver com nossas contradições, estruturas sócio-econômicas herdadas do império, riqueza nacional concentrada, pensamento elitista (somente os indivíduos dotados de grande cultura geral e de grande discernimento científico e objetividade é que podem governar bem uma nação, uma proposta de Comte), sistema agrícola de feição monoculturista, exportador, latifundiário, sujeito às diatribes dos MSTs da vida. Às vezes trocamos os plantonistas no governo, tudo o resto fica como está. Nós idem, daqui a quatro anos repetindo as mesmas façanhas. Melhor é um chope gelado (vou por no cardápio da Distilaria).

Hoje os templos positivistas devem festejar essa
república incompleta e incipiente, Comte se revirando no túmulo diante do que sobrou do legado (informo que não sou dessa paróquia e a foto é do templo de Porto Alegre, lembrança de infância; o de Curitiba consta que fica em alguma galeria do centro). Faz companhia a Platão, esse o maior enganado da história, nunca imaginou no que daria o seu sonho republicano por esta terrinha.
Curtamos o feriado sabendo que faltam 40 dias para o Natal.
Saúde e fraternidade.
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