No começo, ônibus despejavam gente de todos os lugares, máquinas fotográficas documentavam a descoberta. O povo da terra também ia. Até a chuva, e chovia mais dentro do que fora, aceitava-se numa boa - "um dia a Dona Prefa conserta, é próprio de obra inovadora e ousada", eis a desculpa gentil imaginada para as falhas de um projeto que colocava a cidade na modernidade. Cosmética.Por dever de cidadania me peguei "ene" vezes proclamando as virtudes da idéia, enquanto bebericava café contabilizando mentalmente seus problemas. Por dever de vizinhança, assisti quieto a decadência - o fuminho passando de mão em mão, as “mães” fazendo ponto, assaltos, porres, a chuva continuando a molhar mais dentro do que fora. Nessa época, a Rua tinha um (bom) administrador, o José Luiz, morreu enfartado ali pelos 40, quem sabe exaurido pela briga que sustentava sozinho.
Passava por lá, ia um café, momento de ver gente daqui e de fora. Trocavam-se papos, lia-se jornal, esboçavam-se novos e civilizados costumes. Cheguei a fazer uma ceia de Ano Novo no que era, então, o melhor restaurante da Rua. Apesar da chuva, e choveu naquele 31.
A loja de conveniência quebrou, depois a farmácia, aí outras. Brotaram os garçons mais chatos da cidade. O antigo reivindicava o que achava seu e, sorrateiro, assumia o controle da situação. Quebravam-se os encantos e o imaginário.
A Rua encolheu, hoje soma umas 10 lojas assim-assim, “guentando” porque não tem para onde ir e os aluguéis atrasados não são cobrados. Virou beco sem saída.
Um incêndio, sábado (um dia depois que a URBS fez reunião com os lojistas), 11, provocado pelo sabotador Kurt Circuit, como descobriu um cafezeiro, desvestiu um trecho da ex-24 Horas (há muito não funciona as 24 horas). Seguindo a moda, ergueu-se um tapume, feito muro, espremendo a Rua, sugerindo dois mundos, o de anteontem e o de ontem. Piorou. Culpa do aleatório, entende-seAinda bem que desde sábado só caiu leve garoa.
Imagino que os problemas da Rua 24 Horas começam por ela não ter dono: é da Prefeitura, mas a URBS a deixa prá lá; imagino que deveria ser da Secretaria de Turismo, mas essa não vai querer o pepino, pouco importa se a Rua foi cartão de visita de Curitiba. Dos prefeitos, o Greca chegava a aparecer; vereadores aparentam ignorá-la (nada surpreendente, e a 24 Horas não rende votos...). Amarrada aos preceitos de administração pública, a Rua perdeu o mal definido foco inicial. Encarece ser repensada (será resgatável?) mercadologicamente, como um shopping de conveniências (não de comida ruim, de serviços efetivos), funcionando 24 horas.
Tio Nica paga o café. Nono, Jorge, Cunha, Miguel, eu junto, outros que chegam e vão, o Marcial, vira e mexe todos falando nessa melancólica decadência. Em silêncio, Padre Zeno mudou de freguesia para o almoço de domingo.
Da minha parte, mudei de café, o dali deixei para raros momentos com esses amigos. E vou tentando imaginar se depois desse desastre serão feitos além de remendos... Os poucos lojistas acreditam em “enérgicas providências imediatas”. Acreditam porque precisam.
O tempo está firme, não há previsão de chuva. Graças a Deus!
(Foto de Joel Rocha)
Nenhum comentário:
Postar um comentário